Por: Rosângela Barqueiro*
A audiodescrição (AD) possibilita ‘enxergar sem ver’, porém não deve ser instintiva ou empírica. Para ter qualidade e atender as necessidades específicas de quem a recebe, a AD exige estudo, pesquisa e dedicação sobre o assunto a ser audiodescrito.
Isso garante a assertividade nas escolhas precisas das palavras que traduzem as imagens, os gestos e os movimentos para permitir que a pessoa com deficiência visual (PcDV) construa a imagem e possa compreender a história no mesmo tempo de quem está vendo.
Nesse sentido, a AD substitui os olhos e não o cérebro de quem enxerga pouco ou não. Por isso, não pode existir inferências, explicações, justificativas e interpretações. Se isso ocorrer, não é audiodescrição, isto é, a AD deve se limitar a tradução da imagem em palavras.
Isso significa que os olhos veem e o cérebro entende. Então, que fique claro que apenas se fala o que é visto, e assim as PcDV vão entender e ver. A PcDV tem limitações visuais, não são super-heróis, nem incapazes pela deficiência visual.
A convivência entre pessoas com e sem deficiência ensina que não é preciso nem mais, nem menos, apenas o necessário e específico. A PcDV antes de serem pessoas com deficiência são pessoas e muitas (nem todas) também não entendem a deficiência, por vezes, não aceitam, sub ou supervalorizam, discriminam, segregam, porque também tem preconceitos.
A AD é uma tecnologia assistiva que deveria ser usada apenas como instrumento
empoderativo destas pessoas. A AD é trabalhosa e exige profissionalismo de pessoas com e sem deficiência, e, para ter seu objetivo alcançado (independência e autonomia da PcDV), é preciso estudar a técnica e tudo que a envolve.
Isto posto, fica a questão: quantos audiodescritores (que se autointitulam ou mesmo os que foram e estão sendo certificados) estudaram/estudam a deficiência visual? Convivem com PcDV? Têm na sua equipe de trabalho, um consultor com deficiência visual?
Este processo está em construção e assim, necessita desta composição, ou seja, a PcDV (preparada!) deve estar junto na produção da audidescrição. Só assim a AD terá qualidade.
É preciso sair do discurso e começar a praticar para assim garantirmos a acessibilidade e finalmente a inclusão. Já não é mais possível fazer de conta que está oferecendo um serviço. Não é um favor! É um dever!!!
Para quem já tem na equipe de trabalho, PcDV (habilitada), preparada… Parabéns! Este é o melhor começo. Justo, necessário e em conformidade com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência/2008.
*Rosângela Barqueiro é psicóloga e atua como coordenadora de relações institucionais da Laramara, audiodescritora e consultora em Inclusão.
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