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Nem tudo o que parece, realmente é!

Descrição da imagem: foto de um grupo de jovens lado a lado. Eles estão de mãos dadas e com os braços levantados. Vemos o contorno de seus corpos que estão em contraste ao pôr do sol. Fim da descrição.

Hoje, pela manhã, fui surpreendida por imagens que desconstruíram, por alguns instantes, aquele meu lado gentil, amoroso, acolhedor, compreensivo e materno. Ainda bem que foi apenas, por alguns instantes!

Faço parte de alguns grupos de famílias autistas, outros transtornos e síndromes para partilha de conhecimentos, recursos e estratégias inteligentes quanto ao cuidar, cada vez melhor, de seus filhos e filhas. 

Ter a oportunidade de fazer parte desses núcleos é acessar diariamente as dores e lutas de centenas de famílias que batalham, na maioria das vezes, a duras penas, pela garantia de direitos e dignidade humana para que seus filhos e filhas sejam assistidos num país, no qual infelizmente, a politicagem vale mais que o comprometimento genuíno em fazer valer os direitos e deveres dos cidadãos, salvo as exceções, é claro.

Enquanto especialista, educadora, mãe e gente, é um primoroso presente aprender diariamente com essas famílias e outros especialistas e, de algum modo, colaborar para que as pessoas, sintam-se minimamente acolhidas e vistas nessa sociedade ainda tão distante da igualdade, por mais que existam avanços e percursos potentes já percorridos e conquistados até aqui.

É preciso perseverar, esperançar e jamais perder a fé e os valores que nos conduzem e nutrem para persistir na luta por dias melhores para todos.

Mas voltando as tais imagens desoladoras, estava concluindo o meu momento sagrado de oração diária da manhã, quando recebi no celular um vídeo de adolescentes entre 12 e 15 anos, aparentemente de classe média por se tratar de um condomínio fechado numa região de São Paulo, expondo, humilhando, ridicularizando e agredindo um outro adolescente autista. 

Fiquei paralisada assistindo aquelas imagens enquanto um turbilhão de emoções se manifestava em meu organismo. Coração acelerado, pupilas dilatadas, tremores, um nó na garganta formado para sufocar a vontade dilacerante de soltar um grito e deixar as lágrimas rolarem.

Um agredia, outros vibravam, outros ali mesmo caíram em si e se desesperaram diante de tamanha maldade, e um único e solitário adolescente apanhava calado e sem reagir.

É nessas horas que a prática da oração diária e da gratidão pode nos salvar como recurso nobre e poderoso de Inteligência Emocional! Aliás, o que me ajuda muito a lidar com os desafios do cotidiano e quase sempre me salva de grandes enrascadas, são os recursos que todos os dias desenvolvo. 

Naquele momento desafiador, esses recursos foram essenciais para me ajudar a buscar o equilíbrio e me autorregular. Respirei fundo, oxigenei o meu cérebro, nutrindo-o naquele momento com frases de afirmação positiva que surgiram instantaneamente:

Hoje o meu dia será leve, alegre e surpreendente! O mundo está cheio de pessoas boas! Ser educadora é uma excelente oportunidade para plantar boas sementes no mundo! Todos os dias nascem trazendo novas oportunidades para recomeçar!

Ufa! Foi exatamente assim que me acalmei, modelei o meu comportamento e padrão emocional, e pude responder ao material incrédulo recebido naquele grupo de mais de 300 famílias autistas sem deixar que a raiva, a mágoa ou a revolta falassem mais alto do que tudo aquilo que acredito na minha essência. 

E porque isso é importante? Porque quase todas as pessoas se comportam e se relacionam umas com as outras a partir das suas dores. Isso dificulta as interações humanas, afasta as pessoas gerando inseguranças, conflitos, dúvidas e medos, na maioria das vezes, desnecessários. 

Talvez seja isso o que motivou a intolerância e o incômodo daqueles adolescentes, ainda em formação, quanto ao comportamento diferente do outro. É preciso pensar sobre isso!

As pessoas levam para o pessoal – e claro que elas têm as suas razões – coisas que não são colaborativas para que evoluam e amadureçam emocionalmente. E assim, perdem a sua força para escrever suas histórias, inspirar e transformar a realidade com sabedoria e humanidade.

Costumo falar aqui sobre os tesouros da educação consciente e a potência que desenvolver recursos nobres trazem ao desenvolvimento humano. Mas para isso não existe manual, apenas exercício diário, disciplina, autorresponsabilidade e autorrespeito. Óbvio, além do desejo genuíno de atingir a sua melhor versão.

Não é sobre o outro. É sobre VOCÊ!

Eu poderia ter deixado a emoção da raiva, do nojo, da indignação explodirem com a adrenalina gerada pelo meu cérebro e falar das minhas dores de abandono, rejeição, revoltas, incômodos e desespero. Mas respirei. Me acalmei. E só então, partilhei meus sentimentos no intuito de acolher quem estava ali, em profundo sofrimento e dor pelo medo que mães e pais de pessoas com deficiência sofrem ao pensar na vulnerabilidade dos filhos nessa sociedade caótica.

“Me pergunto diariamente o que pais e mães fazem com as suas crianças e adolescentes quando perdidos em suas agendas intermináveis, assumem condutas permissivas e materialistas num extremo, que as distancia, cada vez mais, de virtudes, valores e princípios essenciais para a sobrevivência humana!”

Neste mês de setembro, estamos numa campanha nacional de prevenção e conscientização do suicídio, assim como refletimos sobre a luta pelos direitos da pessoa deficiente. Aliás, ótima oportunidade para pensar sobre a formação dos filhos e as sementes que lhes entregamos em casa e no berço sobre conviver e respeitar as diferenças.

Quando se olha para a infância e adolescência, cresce exponencialmente a cada ano, os índices de suicídio. Basta ler ou assistir aos noticiários e acompanhar estudos sérios realizados por entidades que trabalham em prol desse público para perceber que as coisas não vão bem. 

Afinal, o que pode gerar tanta tristeza, desalento, sentimento de abandono e não pertencimento numa vida que está apenas começando? São muitas as explicações e diversos os estudos de especialistas que dedicam suas vidas a compreender tais motivos para desenvolver estratégias e saberes que ajudem as famílias e educadores a prevenir e lidar com tantos desafios. 

Quando observamos os comportamentos de adolescentes do mundo atual, quase sempre vemos apatia, tristeza, desmotivação, desinteresse, agressividade e um nível de impaciência e intolerância nunca visto em proporções tão elevadas nas gerações anteriores. E isso é assustador!

É assustador ouvir de adolescentes minimamente preservados em seus padrões emocionais e condutas que se sentem intimidados e excluídos por essa maioria esmagadora sem perspectiva e sonhos. Oi?

E sabe, eu não tenho a receita para combatermos esse mal. Mas acordo todos os dias da minha vida engajada em plantar sementes de amor, luz, alegria, respeito, gentileza, empatia e esperança nos corações de crianças e adolescentes que eu convivo. E mais que isso, tento partilhar com as suas famílias saberes que possam lhes acolher e de algum modo nortear para um caminho de acolhimento, diálogo, confiança, partilha, verdade e amor.

Eu não conheço nada mais poderoso e curativo que o amor!

Então, ainda que a vida tenha as suas dores dilacerantes e que nos convide a desistir e simplesmente se revoltar. Respire. Sinta o ar invadir seus pulmões, chegar no seu sistema nervoso, atingir o cérebro e lhe dizer, baixinho, exatamente tudo o que você precisa fazer para formar seus filhos e construir, com atitude e bondade, um mundo melhor para todos. 

Inclusive aqueles adolescentes que perdidos de virtudes e valores, talvez esquecidos pelas próprias famílias, certamente a essa hora estão chorando, com seus corações sangrando de remorso, medo, abandono e de algum modo desolados em sua falta de acolhimento e recursos. Talvez desconheçam alguns segredos sagrados da vida: bondade, compaixão, perdão, empatia, segurança afetiva, pertencimento e amor.

O que você precisa para ser feliz de verdade? Eu não sei. Mas recomendo que seja a mudança que deseja ver no mundo. E compreenda que erros, são excelentes oportunidades de aprendizado e evolução. E a família é a principal escola da criança.

Faz sentido para você?

Com amor,
Roberta Borges

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