Por: Zilanda Souza*
Optar pela progressão ou retenção no ano escolar é uma decisão difícil tanto para o professor, quanto para a família. Mas ao aproximarmos do final do ano letivo, a reflexão e a atitude tornam-se necessárias. Quero abordar esse assunto sob dois aspectos: primeiro, vamos tratar do aluno com desenvolvimento cognitivo dentro do esperado para a sua idade, mas que não apresentou durante o ano desempenho satisfatório para progressão.
Avançar ou reter é um questionamento que deve ser respondido através de análise de dados específicos. Sugiro que uma equipe pedagógica juntamente com os professores e os pais do aluno, reúnam-se em conselho, para responderem juntos algumas perguntas.
Acredito que, ao final das perguntas, todos terão a resposta:
- O que o aluno aprendeu? Quais habilidades desenvolveu? Em que campo do conhecimento ele se destacou? Procurem listar todas essas habilidades, ouvir todos os professores. Não estamos falando de memorização de informações. O critério para a progressão não deve ser o acúmulo de informações e sim o desenvolvimento de habilidades. Evitem menosprezar habilidades em detrimento de outras. Por exemplo, o aluno pode ser um excelente argumentador, interpretador de textos e não ser tão bom em cálculos e aplicação de fórmulas. Nenhum conhecimento é superior ao outro. Procurem tratar todos os campos de conhecimento com igual importância. Em um deles, pode residir o talento do aluno e isso sim deve ter maior peso na decisão do conselho;
- O que o aluno não aprendeu? Informações, conceitos ou habilidades específicas? Que habilidades são essas? É preciso refletir sobre quais as possibilidades reais desse aluno desenvolver essa habilidade no ano seguinte;
- Qual o grau de importância das habilidades não consolidadas? São habilidades para a vida diária? Trata-se de pré-requisito para a aquisição de novas habilidades? E uma habilidade restrita a provas classificatórias como ENEM e vestibulares?
- Porque o aluno não aprendeu? Circunstâncias interferiram (doenças, internações)? Aspectos comportamentais dificultaram o processo de ensinagem (faltas sem motivo, não cumprimento de tarefas, indisciplina)?
- Como a escola reagiu a essas circunstâncias e aos aspectos comportamentais que podem ter interferido no processo de aprendizagem? Que medidas foram tomadas? A família tomou conhecimento?
- Como a família reagiu a sinalização da escola? Que medidas foram tomadas?
- Como o aluno respondeu a interferência da escola e da família em sua conduta? Que alterações foram identificadas?
Tratando de alunos com desenvolvimento atípico, que apresentam transtornos que comprometem o processo de aprendizagem, eu incluiria outras perguntas para o conselho:
- Que medidas foram tomadas para a inclusão do aluno dentro do espaço escolar?
- Como o aluno reagiu a essas medidas?
- Como se deu durante o ano, a participação da família no processo de inclusão? Tratamentos e terapias foram realizados de acordo com as orientações médicas?
- As orientações dos relatórios e laudos prescritos pela equipe multidisciplinar foram atendidas?
- Reter esse aluno, garante a ele o acesso a todos os procedimentos que não foram realizados nesse ano?
- Reter o aluno, vai proporcionar maior tempo de estimulação e intervenção em habilidades básicas não consolidadas?
Alunos que apresentam Plano de Desenvolvimento Individual, devem ter suas habilidades checadas dentro do seu próprio currículo. Avançar para o ano seguinte é assumir a responsabilidade de que o aluno está apto para os próximos desafios, enquanto que reter um aluno no mesmo ano escolar, é considerar segundo Lev Vygotsky, seu desenvolvimento real e ter clareza de que, repetir processos de ensino constitui a ‘zona do próximo desenvolvimento’ apropriada para o nível cognitivo e socioemocional em que aluno se encontra. Retenção não pode ser punição. E preciso garantir que tal atitude não vai causar prejuízos ao desenvolvimento do aluno. Tudo isso vai muito além de computar pontos em provas. E preciso uma análise profissional, ampla e ética, onde o desenvolvimento do aluno tenha a maior importância.
*Zilanda Souza é mãe, professora, especialista em psicopedagogia e neuropsicopedagogia. Autora do livro ‘Brincando de Palavrear’, coordenadora da pós-graduação em neurociência aplicada a avaliação e intervenção psicopedagógica e doutoranda em saúde coletiva. Diretora da Espaço Vida em Minas Gerais e no Distrito Federal. Atua em pesquisa voltada para a intervenção em funções executivas em crianças do ensino fundamental anos finais.
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