Em resposta aos nossos leitores/seguidores que decidiram na enquete, promovida em nosso instagram, vamos continuar falando sobre ferramentas que auxiliam no trabalho escolar com crianças autistas. Na semana passada, trouxemos o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI), que tem como objetivo principal delinear o currículo individualizado das crianças autistas. Hoje vamos trazer mais uma ferramenta: o Diário de Bordo para monitoria da criança autista.
Vamos partir primeiro dos direitos da criança autista. Elas têm direito a um currículo individualizado e também a um monitor dentro da sala de aula, além do professor da turma. A função do monitor da criança autista é apoiar e estimular as habilidades que ela mesma não consegue desempenhar dentro de uma proposta coletiva. Por exemplo, crianças autistas tendem a não apresentar resposta auditiva e visual adequadas diante da fala coletiva do professor. É como se o professor não estivesse falando para ele. O monitor por sua vez, se aproxima, abaixa-se na altura dos olhos da criança, toca o braço dela e repete o comando do professor. Nesse exemplo, o monitor foi um apoio para compensar os baixos níveis de respostas auditiva e visual. Outro exemplo que está vinculado à resposta auditiva e visual é a habilidade de iniciação à resposta. É comum encontrar baixos índices desta habilidade em crianças autistas, sendo necessário que o monitor utilize um mecanismo de iniciação: fazer um exemplo, pegar o lápis, apontar a atividade ou sinalizar o início com uma tecnologia assistiva de comunicação.
Dei apenas dois exemplos e já é possível mensurar a importância do trabalho do monitor de sala de aula para crianças autistas. E qual a importância de um diário de bordo para o trabalho do monitor?
Ele é útil para organizar as informações diárias sobre a criança, afim de que o sistema de avaliação através da observação seja digno de confiança. Lembram que o nosso PDI leva em conta a avaliação através da observação? Isso mesmo. Porém essa observação precisa ser digna de confiança e precisa estar organizada. O Diário de Bordo é um suporte de memória para o monitor.
Ele também é um recurso de investigação para compreender os sintomas. Vou dar um exemplo: imagine uma criança que apresenta uma resposta emocional alterada, irritabilidade e autoagressão. O Diário de Bordo do monitor vai registrar quais dias e horários acontece a alteração emocional e curiosamente ele vai perceber que, as alterações emocionais coincidem com os momentos em que o professor faz uso de música, sinalizando que a hipersensibilidade auditiva pode contribuir para as alterações emocionais. Então o monitor tem uma informação com algum embasamento e pode propor ao professor algumas intervenções. Já encontramos a importância do monitor. Conseguiram identificar a importância de um Diário de Bordo para Monitoria da Criança Autista?
Bem, agora vamos organizar as informações mais relevantes que devem compor o Diário de Bordo do Monitor. É importante que ele seja organizado por dia. Todas as informações devem estar elencadas dentro do tempo cronológico da criança na escola, registrando o horário e a atividade em curso. São informações importantes para avaliação e investigação:
- Vocabulário novo: “Gabriel falou suco quando estava lanchando.”
- Comunicação Verbal: “Gabriel solicitou água.”
- Comportamento novo: “Gabriel conseguiu sentar na roda com os colegas.”
- Comunicação não-verbal: “Gabriel apontou para o banheiro, pegou minha mão e me levou até a porta do banheiro.”
- Resposta emocional: “Gabriel sorriu quando eu abri a caixa de brinquedos.”
- Alterações emocionais/comportamentais: “Na aula de educação física, Gabriel chorava e batia as mãos na cabeça.”
- Conhecimento acadêmico: Gabriel identificou os personagens na história, sinalizando com o dedo.
É importante deixar claro, que o Diário de Bordo não tem funcionalidade, se antes não existir um PDI que norteia o processo de ensino e aprendizagem da criança. E ambos, PDI e Diário de Bordo não tem função se não existir uma avaliação que mapeie com cuidado o desenvolvimento da criança e o quadro sintomático. Então temos uma sequencia lógica para o trabalho:
Mãos à obra e vamos ajudar nossos monitores na elaboração do Diário de Bordo.

