Faço minhas caminhadas todos os dias, afastada fisicamente daqueles que, desmascarados, revelam seu negacionismo egoísta nas ruas; respirando coberta pelo filtro que antes via no rosto de médicos e enfermeiras, busco o equilíbrio mental que me falta atualmente. Enquanto a pandemia não passa e a morte nos ronda, vamos aguardando o futuro ‘novo normal’, embora eu não consiga antever o significado dessa nova proposta de vida social que nos aguarda.
Gosto de ver e analisar a expressão das pessoas na rua. Andam rápido, coladas na telinha do celular ou falando sozinhas e gesticulando: fosse noutra época, seriam consideradas ‘fora da caixinha’, mas, com tantas possibilidades digitais, as pessoas cantam, falam com outros, assistem aulas enquanto andam, repetem fórmulas e textos para as provas, dançam, selfies aos montes, filmam, fazem cálculos e brigam com si próprios quando erram. É divertido.
Durante a andança, ao atravessar a rua, vejo a imagem que estampa a coluna: um automóvel.
Estava estacionado na esquina, o que não pode, sobre a faixa de travessia de pedestres, o que também não pode e mais: em frente a uma guia rebaixada impedindo a circulação daqueles que podem ter a mobilidade reduzida seja qual for o motivo. Isso tudo sob a placa de ‘proibido estacionar’. Fugiu da escolinha de habilitação? Nada disso.
Pensei: quem se atreve a cometer tantas infrações e desrespeitar tanto assim as pessoas? O veículo é de uma prestadora de serviços chamada MANSERV que, por sua vez, foi contratada pela ENEL SP. O rapaz estava saindo do carro. Neste momento perguntei se ele estava ciente de que tinha estacionado de forma irregular impedindo a passagem de qualquer pessoa e, em especial, daquelas com mobilidade reduzida. De pronto: “e daí?”. Solicitei que tirasse o automóvel de lá. Virou as costas e saiu andando. Comentei que iria postar a imagem e publicar. Saiu. Me deixou falando sozinha. Só isso.
O que me incomodou em toda esta história? Trata-se de uma cena comum, muito mais comum do que se pode imaginar. É o retrato do descaso para com o espaço público. São justamente estes lugares de uso público os lugares destinados aos cidadãos e ao exercício da vida pública. Eles devem ser cuidados para que sejam acessíveis, agradáveis à vida urbana, seguros, limpos, gratuitos e não podem ser utilizados para fins particulares como este da foto. Estacionou porque era conveniente, porque assim o quis, entendeu que o seu direito de trabalhar e resolver o problema das duas empresas para as quais presta serviços era mais importante do que o direito da mãe que circula com o carrinho de bebê e que por causa dele corre o risco de ser atropelada na esquina, o direito do cuidador de atravessar a rua com a cadeira de rodas que transporta uma pessoa debilitada e que saiu para respirar e ver o sol e que agora vai dar meia-volta ou ainda, o meu direito de atravessar a rua e que ele impediu com seu carro.
O que explica a “cara de e daí?” do motorista? Resposta simples: a omissão dos gestores públicos em todas as instâncias e às empresas contratadas que não capacitam, educam, civilizam seus colaboradores para o exercício da cidadania, desenvolvimento da empatia e a aplicação das regrinhas básicas de educação e respeito para com o próximo e para com a sociedade de forma mais ampla.
O que eu iria fazer? Ligar para a CET – Companhia de Engenharia de Tráfego e pedir providências? Só rindo… Tentar acessar o Portal da Prefeitura de São Paulo 156 e depois do login e senha tentar encontrar na plataforma onde é que eu encontro algo que atenda prontamente o que estou vendo na imagem? Só se for piada pois, mesmo que eventualmente eu conseguisse abrir uma reclamação, um número de protocolo seria enviado ao meu e-mail informando que o assunto seria analisado e que, em algumas semanas, retornariam com a providência tomada. Considero isso ainda pior do que a cara de “E daí?”. É tratar o cidadão e seus problemas de zeladoria urbana como paspalho.
A inação dos órgãos fiscalizadores, a ausência de punição, a falta de canais confiáveis de interação para com a prefeitura da cidade estavam estampadas na expressão de “E daí?” que recebi. É a certeza da impunidade. Estamos entregues à própria sorte.
Você costuma presenciar carros estacionados de forma irregular utilizando áreas destinadas a pessoas com deficiência? (deixe seu comentário)
