Ser adulto não é fácil… casa, comida, emprego, filhos, família, papéis sociais dentro de uma sociedade ao qual precisamos lutar pela sobrevivência, rotina e status quo. As nossas agendas são cansativas e os nossos papéis sociais demandam de muita energia física, emocional, financeira, ao qual no final do dia nos sentimos esgotados de tantas tarefas a cumprir. Uma realidade de compromissos dependendo do papel social de cada adulto.
Algumas famílias, com a descoberta da deficiência de seus filhos, têm seguido uma rotina imbuída na luta e busca de melhorias significativas no desenvolvimento por meio da habilitação e reabilitação, rotinas e compromissos intensos de diversas intervenções terapêuticas, buscando os serviços públicos, particulares ou por convênios, às vezes até duplicando o mesmo tipo de intervenção terapêutica dentro do sistema público e particular em concomitância. Será que o excesso é benéfico?
Entendo sobre a busca da melhora seja intensa e esperançosa, mas as crianças também podem ficar exaustas de tantas intervenções terapêuticas e confusas, principalmente quando as famílias colocam na mesma especialidade duas vezes, tanto clínicas até a equoterapia.
Esse ano descobrimos mais de dez casos que faziam equoterapia em dois lugares, municípios e particulares, com condutas totalmente diferentes. E como fica a cabeça da criança?
A busca intensa por excesso de intervenções terapêuticas, podem ocasionar oscilações de humor e comportamentais, estresse, cansaço, exaustão emocional e física nas crianças, que deixam de serem crianças e de repente se encontram numa agenda de adultos.
Antes da deficiência, ‘a criança é criança’ e precisa ter uma rotina de ‘criança’, isto é, brincar com a família, ter atividades caseiras e educativas, dormir um soninho durante a tarde. Contudo, um tempo livre sem agendas prescritas – diárias para conviver no ambiente familiar.
É de casa que se traz a educação primária, pode ou não pode, deve ou não deve, o respeito, a empatia, o cuidado, o uso do banheiro, as autonomias de vida diária, a rotina de cuidados pessoais e a introdução alimentar, entre outros. A criança aprende por exemplos, e a família é fundamental como espelho e exemplo para a construção da autonomia, da cognição e da personalidade dessa criança. A família não pode perder o seu papel de educação primária, como está acontecendo, pois, a educação está sendo muitas vezes delegada à escola e às intervenções terapêuticas.
Não é somente a escola ou as terapias que são responsáveis pela organização e aprendizagens das crianças. Reforço que o papel da família é o mais importante nesse processo. Sem a parceria da mesma, não ocorre o desenvolvimento da criança, sendo este educacional, cognitivo, motor, comportamental ou emocional.
O conjunto entre escola, intervenções terapêuticas, medicina e a parceria da família para a eficácia dessa tríade é necessária.
O uso excessivo de telas está viciando as crianças em dopamina, deixando de executar outras atividades importantes para o desenvolvimento do equilíbrio, da autonomia, da coordenação motora grossa e fina, e até mesmo o brincar com função simbólica.
Escuto muito das famílias coisas como: “meu filho não aceita o não”, “é intolerante à frustração” ou “é heteroagressivo quando se impõe regras”. O mundo não é fácil se não ensinarmos o não, as regras sociais e de convivência, nesse momento de construção da personalidade, mais para frente será bem difícil, porque as regras sempre existirão e não há um mundo imaginário e pessoal para as interações sociais e ambientes coletivos. O mundo é cruel e, se queremos um desenvolvimento das pessoas com deficiência, podemos trabalhar o não com paciência, parceiras e construções.
