Hoje o meu coração sangra de dor e pesar por todas as crianças e adolescentes que são violentados de múltiplas formas, escancarada ou velada, dentro das escolas.
E na mesma proporção, me solidarizo com aqueles professores que, conscientes da sua importante missão no mundo, persistem, acreditam e lutam diariamente, para manter a saúde mental e o equilíbrio emocional em meio a tantas pressões que vêm de todos os lados. Colegas, gestão, famílias, alunos, especialistas e própria sociedade que espera mágica sem dar recursos e condições formativas e seguras para um bom trabalho.
Me conecto ainda, às mães e pais, que além dos desafios naturais que enfrentam em suas lutas diárias, sentem desconforto e insegurança em deixar seus filhos na escola, lugar que deveria ser a sua principal e mais segura Rede de Apoio.
Sim, sou mãe de duas meninas, cada qual com a sua história e singularidades. E, assim como qualquer mãe que ama seus filhos e sonha o melhor para eles, sinto uma dor dilacerante ao saber que na escola do século 21, ainda se observam comportamentos inaceitáveis, posturas preconceituosas e palavras inescrupulosas quando e onde, o amor deveria prevalecer.
Dói porque vivi na pele a vergonha irreparável da exclusão e da negligência na infância. E sei muito bem os reflexos disso na vida de crianças e adolescentes quando não têm com quem se abrir.
E, certamente por isso, escolhi ser educadora ainda menina, idealizando um ambiente de afeto, acolhimento e virtudes primorosas para ‘arar’ o terreno fértil do desenvolvimento. E olha que naquele tempo, quase nada se sabia sobre a capacidade indiscutível de aprender e se remodelar do cérebro humano.
Sim, era apenas uma criança, que violentada pela ignorância de alguns educadores, foi rotulada, excluída e diminuída em meus talentos, baseados apenas nas limitações que alguns faziam questão de apontar. Elas eram concretas. São até hoje, e atrapalharam algumas coisas e conquistas no meio do caminho. Mas seguem, muitas vezes, indecifráveis, porque desenvolvi recursos nobres para sobreviver com alegria e realização no mundo.
Ainda assim, eu já fazia uma analogia carinhosa entre professores e jardineiros de sonhos. Naquela sabedoria inconsciente da infância, ao observar os comportamentos dos adultos, imaginava como deveria ser o papel dos educadores, especialmente, dentro da escola.
Educadores são como jardineiros que plantam sementes poderosas de amor, alegria, descobertas, encantamento, esperança e evoluções surpreendentes.
E mesmo não sabendo nada sobre a vida, mas já tendo experimentado o gosto amargo do abandono, da rejeição e da negligência, idealizava uma escola e uma sociedade inclusiva, colorida com a diversidade natural da existência humana, assim como um jardim florido e abençoado.
Recordo que naquele tempo as pessoas com deficiência eram escondidas nas suas casas quando não colocadas em clínicas ou colégios internos. Era difícil conviver com o diferente. Mas quando ia à casa de amigos dos meus pais que tinham crianças, adolescentes ou adultos com deficiência ou qualquer outro comportamento que eu percebesse diferente do que os meus olhos de criança já haviam observado, ficava curiosa em saber mais, me conectar e acolher o sentimento que vinha ao meu coração.
Bem, parecem óbvios os motivos pelos quais escolhi dedicar a minha vida à educação. E justamente por isso, considero qualquer tipo de comparação ou exclusão inaceitável. Sou imparável na busca de soluções, respostas e propostas inteligentes, inovadoras e afetivas que proporcionem ao ambiente escolar o acolhimento, o diálogo, a leveza e o desejo por aprender.
A conexão entre alunos e professores é necessária e precede a aprendizagem verdadeira e feliz!
Educação sem afeto e emoção, não gera transformação!
Educadores conscientes aceitam as singularidades que chegam, cada vez mais, às escolas. Estudar e se humanizar é um bom começo para dar conta das demandas, mais do que rotular e limitar os potenciais dos alunos. Além de ser também um ato de coragem e autocuidado fundamental, porque bons professores, compreendem a necessidade de ‘se olhar no espelho’ e investir na sua saúde mental. Então, diante de desafios, são humildes e buscam ajuda porque são comprometidos com a sua missão.
Educadores conscientes e maduros jamais culpam seus alunos, ao contrário, questionam suas práticas, admitem que precisam refinar seus saberes e remodelar a sua conduta. Não é sobre o outro. É sobre VOCÊ!
Contudo, àqueles que insistem em ignorar suas vulnerabilidades, certamente são os que abusam do poder que ‘acham’ que têm. Desrespeitam as histórias únicas de seus alunos; ignoram suas dores; achatam sua autoestima; destroem seu desejo de aprender e apagam a luz dos seus olhos inocentes.
As demandas da escola são muitas e quanto mais a gente mergulha, mais percebe que há muito o que fazer, principalmente num país que nas mínimas coisas, parece limitar a esperança em dias melhores.
Ser otimista, portanto, faz total diferença nesse percurso! É uma grande ousadia!
É preciso cuidar das pessoas. Olhar com carinho e responsabilidade para os propósitos que temos na vida. Ter clareza dos valores e motivos que temos para estar AQUI e AGORA.
Afinal, a nossa maior dor, inacreditavelmente é também a força que nos impulsiona para a mudança.
Assim, como educadora, mãe e gente, sonho em deixar marcas de amor, respeito, diálogo, firmeza com gentileza, acolhimento e alegria no coração do meu próximo, seja quem for, especialmente nas crianças e adolescentes que cruzam o meu caminho. Porque na maioria das vezes, quando estou com elas, vejo brilho em seus olhos. E isso muda tudo!
As escolas precisam entender que os tempos mudaram. Conteúdos devem estar permeados de habilidades, escuta e oportunidades de vivências e experiências. E, acolher os educadores que verdadeiramente amam o que fazem. Mais do que seus salários ou status que alguns, equivocadamente pensam ter quando sequer conheceram ou experimentaram outras possibilidades e realidades em suas trajetórias profissionais. Pessoas acomodadas e sem critérios.
Eu respeito, mas não compreendo. Não na escola! Tenho compaixão, pois a caminhada longa e intensa da vida me ensinou que mediocridade existe em todas as esferas da sociedade e tem a ver com escolhas muito íntimas para debater aqui. Não cabe julgamento. Apenas pesar.
Observo que em muitas escolas, encontramos os conhecidos ‘pequenos imperadores’, aqueles que são quase relíquias das instituições. Usam falas para intimidar como, “Aqui sempre foi assim” ou “Já fazemos isso há muito tempo”, e não importa “o que” ou “como” façam, alguém rapidamente se mobiliza para disfarçar seus devaneios e incompetência, já que nas atitudes o que vejo de concreto é incoerência e despreparo.
É uma confusão de egos e culpa que atrapalha as relações humanas saudáveis na escola e fragiliza, profundamente, o ato de educar. E pior ainda, tira das crianças e adolescentes o DESEJO de aprender. Sem desejo, sem futuro.
Então, é preciso ter coragem para falar escancaradamente sobre a violência velada do lado de dentro das escolas. Sabedoria para conduzir as crianças e adolescentes por caminhos de ética, amor e cura.
E, principalmente, disponibilidade para OUVIR O QUE AS CRIANÇAS TÊM A DIZER. Acolher a tristeza que demonstram quando voltam da escola. Observar seus comportamentos, validar suas emoções e o quanto se sentem desamparadas no ambiente escolar.
NADA, pode ser mais precioso do que contemplar o sorriso livre e sincero no rosto dos nossos filhos! E se você não enxerga essa felicidade genuína, talvez seja o momento de entender melhor, o que acontece do lado de dentro da escola.
Com amor,
Roberta Borges
