Quem gosta de uma boa história sobrenatural com vampiros, lobisomens e fantasmas vai se identificar com o livro Desmortos da escritora autista Mary Müller. A narrativa, lançada pela Editora Naci, conta que em certo dia, a personagem Lorena desperta na gaveta de um necrotério e percebe estar verdadeiramente morta-viva. Ela embarca em uma jornada mórbida e divertida no Mais-Além, onde encontra vampiros que gostam de pantufas, fantasmas que tocam guitarra ao lado de uma ‘lobismina’ e de um médium em uma banda de rock.
A autora compartilha um pouco sobre a inspiração por trás de Desmortos.
“Sempre fui fascinada por temas sobrenaturais, como zumbis e fantasmas, e assistia muito a séries como Dead Like Me e Pushing Daisies. Inicialmente, era apenas um conto, mas acabei desenvolvendo um mundo complexo demais para se limitar a isso, então decidi transformá-lo em um romance. Busquei outras obras e referências, como a técnica literária Slice of Life, de fantasia sobrenatural, e assisti a séries como Being Human e li iZombie, das quais me inspirei para criar um ambiente com diversos seres sobrenaturais convivendo juntos. Também há uma referência a Julie e os Fantasmas com a banda,” conta Mary Müller.
Müller revela que, na primeira versão do livro, não percebeu que estava escrevendo sobre personagens neurodivergentes, nem que estava inserindo um pouco de sua própria experiência na obra.
“A experiência de escrever foi incrível. Quando recebi o diagnóstico de autismo, as coisas ficaram mais claras, e percebi que havia criado uma metáfora com os seres sobrenaturais da história”, destaca.
A narrativa reflete características da autora, com Lorena demonstrando sua persistência, seu lado sonhador, sua expansividade em relação às pessoas em quem confia. Já Lucas, lida com a dor de não compreender por que é diferente, sentindo-se deslocado e buscando um sentido de pertencimento. Felipe, por sua vez, enfrenta exaustão e raiva em um mundo que o rejeita, lutando para se adequar. ‘Desmortos’ pode abordar a morte, mas também trata de temas como superação, seguir em frente, permitir-se e aceitar-se.
A autora explica que a literatura foi uma de suas primeiras paixões, fazendo parte intrínseca de sua vida. Ela ressalta que é comum para neurodivergentes terem paixões e interesses especiais, e poder trabalhar com eles torna a vida um pouco mais fácil.
“Poderia dizer às pessoas neurodivergentes para ‘seguirem seus sonhos’, mas seria hipócrita. O melhor é pensar que não estamos sozinhos, que não há nada de errado conosco, mas sim que o sistema nos exclui. Podemos lutar contra isso. Consegui cursar faculdade, pós-graduação e encontrar um parceiro tão doido quanto eu, que me apoia. Precisamos disso, de pessoas ao nosso redor nos apoiando”, relata Müller.
O livro já está disponível no site da Amazon, nos formatos digital e impresso.
Sobre a autora

Mary C. Müller é uma garota estranha que gosta de coisas esquisitas e nunca tentou comer aipo. Começou a carreira literária no Wattpad, onde ganhou três prêmios Wattys. Escreve seus livros ouvindo música triste e tomando café, colocando representatividade neurodivergente e queer em suas histórias.
