Nos últimos dias temos acompanhado as proezas fantásticas que os nossos atletas paralímpicos têm realizado em Tóquio. Coisa linda de ver e outras tantas para refletir!
A cada vitória alcançada vibrei pela alegria, gratidão e energia presentes no olhar das pessoas que subiam ao pódio felizes pela conquista. Mas de verdade, imediatamente me vinham as mães e pais de cada um deles à mente e ao coração.
Mães e pais que guiaram seus filhos por um caminho de encorajamento e amor!
Sinceramente não conheço caminho mais assertivo para guiar um filho do que o do amor, do diálogo, da cooperação, do acolhimento que valida suas emoções e encoraja a seguir adiante seja qual for o desafio, porque perder e errar faz parte do show, mas para subir ao pódio é fundamental experimentar as pressões da vida e perceber que a única pessoa que pode lhe parar, é você mesmo.
E eles persistiram. Seguiram adiante, buscaram dentro deles a força e o poder para ultrapassar seus limites e brilhar como mereciam, porque são imparáveis!
É impressionante como a vida nos presenteia com algumas oportunidades únicas! Confesso que quando aceitei o chamado para mergulhar no universo inclusivo fiquei um pouco apreensiva e insegura, me sentindo vulnerável porque apesar de tantos anos de estrada e toda expertise em Educação, desenvolvimento humano e Inteligência Emocional, de algum modo, acessar essa realidade me causava ‘um frio na barriga’ e medo de talvez não dar conta das demandas que viriam pela frente.
A vida é uma indescritível caixinha de surpresas! E é claro que isso me encanta porque gosto de desafios e descobertas. É bom sair da zona de conforto e ser instigada, convidada à reflexão, a busca por novos saberes e possibilidades para desconstruir preconceitos e trilhar novos caminhos, construir pilares e perspectivas.
Viver a inclusão, em todos os seus espectros, colabora muito para esse ir e vir de vivências memoráveis e transformadoras. Que coisa incrível é acessar as histórias das famílias e ver que as dores e alegrias são potentes e desafiadoras como é para qualquer família que realmente se interesse pelos filhos. E aqui, me chama atenção ver o nível de conexão, cumplicidade, confiança e amor que via de regra, se estabelece do lado de cá do muro.
Entenda bem que isso, em hipótese alguma, quer dizer que seja fácil. Pelo contrário, tudo aquilo que foge dos ‘padrões de normalidade’ estabelecidos nesse mundo de aparências e profundas desigualdades, exige muito acolhimento, sensibilidade, escuta, observação, empatia, respeito, humildade e aceitação para dar conta de seguir adiante. E isso não é nada fácil, especialmente quando se vive num país que engatinha no que diz respeito à garantia e efetiva aplicação de direitos.
A convivência com a diversidade é uma grande oportunidade de evolução e desapego aos ‘padrões limitantes’ que via de regra a sociedade nos impõe. O diferente é belo e curioso porque mobiliza continuamente em nós a auto avaliação, a empatia, o autocontrole, a autorresponsabilidade, o autoconhecimento, a automotivação e a capacidade de interagir com os outros que são pilares da Inteligência Emocional. É fundamental olhar para dentro, e então, ter condições de olhar para o outro.
Viver um dia de cada vez e apostar nas potencialidades que cada um traz em si exatamente ‘do jeitinho que é’, talvez seja um grande desafio para a maioria das pessoas que insistem em valorizar mais às limitações.
Quando me tornei educadora e passei a conviver com centenas de famílias diferentes, cada uma com a sua história, ano após ano, aprendi coisas fantásticas especialmente com as mães de crianças com deficiências que trazem em si uma força extraordinária para fazer valer os direitos dos filhos e lutar por todos os outros também. Mulheres e mães que abrem mão de suas funções corporativas, seus empregos e suas carreiras para cuidar de quem mais amam na vida. Terá algo mais valioso do que isto?
Assistindo aos Jogos Palaímpicos de Tóquio derramei algumas lágrimas agradecendo a Deus pela grande alegria de viver um tempo em que as pessoas com deficiência, ainda que aos trancos e barrancos (porque cada um sabe bem da sua história), têm voz e podem deixar seu legado no mundo. Pois sabemos que nem sempre foi assim e que ainda há muito o que se evoluir no campo das políticas públicas. E por isso lutam incansavelmente pelo seu espaço na sociedade e no mundo.
É inconcebível que as escolas regulares sequer cogitem a possibilidade de não atender crianças com deficiências. A diversidade presente na escola em todos os níveis é rica e poderosa na formação humana e na preparação das crianças para um mundo que sabe conviver de forma saudável e cooperativa com as limitações e diferenças.
Que coisa incrível ver cada um dos atletas batalhando pelo seu espaço e deixando a sua marca! Adolescentes, mulheres e homens em estado de igualdade mostrando ao mundo quem são e até onde podem ir. E certamente cada qual com a sua bagagem desafiadora e muitas vezes cruel, triste, dolorida e traumática. Mas estavam ali, batalhando pelo seu lugar de protagonista na história, nas suas histórias de vida!
Me emocionei por cada um que subiu ao pódio e abracei mentalmente às mães e pais que plantaram sementes tão fecundas de coragem, alegria, resiliência e amor em seus filhos desbravadores.
Dizem que são os filhos que escolhem seus pais.
Talvez aqui esteja a explicação fundamental para que cada um de nós se aceite e acolha na certeza de que fomos escolhidos para dar o melhor que pudermos aos nossos filhos, e esse amor potente que liberta e expande, começa exatamente no momento em que os carregamos pela primeira vez, olhamos em seus olhinhos e entendemos que é necessário aceitar e honrar, incondicionalmente, quem eles são.
Faz sentido para você?
Vamos juntos?
É preciso cuidar das pessoas para transformar o mundo!
Gratidão, amor e luz,
Roberta Borges
