Durante todos os anos da minha vida, repetidamente, quando chegam os dias festivos que a sociedade insiste em manter vivos, o meu coração se aperta.
É um misto de alegria, melancolia, preocupação, tristeza, medo, inconformismo. Memórias. Dores e alegrias da infância e da adolescência. E claro, um tanto de consciência e maturidade emocional que pouco a pouco, fui construindo para lidar com o caos enigmático de uma sociedade repleta de contradições.
Sinto saudade das coisas lindas que vivi com quem eu amo. Lembranças que invadem meu coração e repercutem para todo o resto do corpo o calor, os cheiros, as sensações de acolhimento e amor.
Emoções, lugares, pessoas, cores, palavras, momentos, poesias e músicas que degustamos juntos ou não. Saudade é um sentimento especial porque só nasce quando algo ou alguém fez sentido em nossa jornada.
Penso nas barreiras impostas pelas idas e vindas da vida. O quanto as brigas e desentendimentos familiares reverberam nas histórias. Separam pessoas que se amam. Mudam percursos, desviam o rumo das estradas e oportunidades.
Datas festivas alegram e destroem corações.
A vida é feita de escolhas e de algum modo, pagamos a conta por elas. Afinal, ações geram reações. É preciso assumir as consequências e desde cedo demonstrar isso aos filhos, ainda que muitas das vezes, cause dor ou decepção.
Mas acredite, é preciso preparar as nossas crianças para gerirem com os ‘nãos’ da vida. Quando os filhos chegam idealizamos um percurso perfeito e repleto de momentos memoráveis, flores, encantos, surpresas, céu azul e alegrias. Dá medo ver as coisas fugirem do nosso controle e se deparar com as mazelas incontroláveis da existência real.
Na caminhada existem dias chuvosos, tempestades, raios assustadores, tristezas, medos, desafios, limitações.
Frustrar expectativas e idealizações, muitas vezes colabora para que as pessoas desenvolvam habilidades fundamentais para a sobrevivência num mundo de tantas inconstâncias.
Autogerenciamento, resiliência, capacidade de resolver e gerir conflitos, empatia e autoconhecimento. Habilidades poderosas que acessamos quando as coisas não saem conforme o planejado e, ainda assim, nos convidam a persistir, encorajar, buscar alternativas, oportunidades e seguir adiante com mais coragem, sabedoria, recursos nobres e saberes potentes na mochila.
E talvez a grande beleza da caminhada esteja justamente nesse misto de caos e leveza, alegria e tristeza, vulnerabilidades e forças, cansaço, desolação e coragem.
As datas festivas nos convidam a pensar sobre a dualidade de emoções e sentimentos que as pessoas experimentam, cada qual na sua história. Formas diferentes de ver e sentir os momentos, as pessoas. Diferenças gritantes entre o ideal e o real. Entre o certo e o errado. Entre o bom e o mau.
Algumas famílias têm um movimento curioso quando chegam as festividades. Parece que tudo aquilo que se vive no dia a dia precisa ser esquecido, minimizado, encaixotado para se atender às expectativas alheias de uma sociedade vazia, hipócrita e abundante em filtros e promessas de uma perfeição inexistente. Tudo passageiro.
No final, o que resta são os valores e a essência real da família, as memórias afetivas, carinhos, cheiros, sorrisos que perduram na formação humana das crianças e adolescentes.
Coerência. Presença. Constância.
Pessoas vão e vêm da vida da gente. Presentes e festas também. O que importa no final são as marcas pequenas ou gigantes, exuberantes ou modestas. Os momentos, os carinhos. Apenas isso.
Gosto mesmo é das famílias que se dedicam diariamente a cuidar, proteger, orientar, acolher, aceitar e guiar seus filhos para o mundo, não me parece que tenham tempo demasiado para supervalorizar as datas festivas que cumprem o seu protocolo, especialmente comercial no calendário anual. Mas ao entardecer, não passam de alegria passageira para aqueles que usufruíram de algum modo as coisas boas do mundo moderno ou simplesmente tristeza, vazio e silêncio para quem recobrou a realidade e percebeu que se tratava apenas de mais um dia.
Conheço incontáveis famílias que nem mesmo nas datas festivas conseguem coordenar suas agendas tumultuadas e insanas para honrar o papel que batem no peito para vangloriar aquilo que são incapazes de compreender.
Estão tão preocupados em proporcionar que sobra pouco ou nenhum tempo para partilhar e contemplar seus filhos crescerem. Sim, a vida é feita de escolhas!
Pais que priorizam seus afazeres e deixam seus filhos em lágrimas nos bancos escolares, nos palcos e salões de festas destruídos em suas essências, carências, desamparados, atônitos, desacreditados daquilo que não puderam viver e ainda tiveram que assistir os colegas viverem.
Abandono afetivo. Corações dilacerados, histórias de vida escritas com inseguranças, desencantos, raiva, tristeza, medo, decepção.
Registros que ficam marcados nos corações e nas memórias de um tempo tão lindo e que não volta mais, porque infância é só uma na caminhada.
Datas festivas deveriam ser um convite às pessoas assumirem sua responsabilidade e importância na vida, no cuidar, amar, priorizar e manter a família unida e feliz.
Um convite irrecusável a pais e mães, avós, tios e tias, madrinhas e padrinhos, assumirem seus papéis na história linda dos seus pequenos e honrar a indescritível oportunidade de serem educadores e exemplo.
Afinal, todos os dias são convites sublimes para festejar a oportunidade de estar perto de quem amamos. E adiar essa festa é abrir mão da única coisa que temos na vida, o AQUI e AGORA.
Feliz todo dia da família!
Com amor,
Roberta Borges
