Quando eu era criança, todas as vezes que aconteciam situações desafiadoras na minha rotina, em algum momento do caos, buscava um lugar escondido, me encolhia abraçada às minhas pernas, fechava os olhos, às vezes tampava os ouvidos, entre lágrimas e soluços, tentando dissipar as emoções de raiva, medo e nojo, que me causavam dores de cabeça, falta de ar e muitas vezes, vômitos.
Pensava repetidamente, como serão os outros dias?
Era uma mistura de desespero e revolta diante das agressões, injustiças, humilhações, abandono afetivo e negligências da vida que, apesar de espetacular e maravilhosa em muitos aspectos, também tem crueldades e muitas situações que nem sempre pais e mães conseguem gerir ou controlar, especialmente quando não têm recursos emocionais para ajudar no percurso.
Ainda na infância, aprendi que as emoções fazem parte da nossa história e estão presentes em todos os momentos da existência humana.
Desde o útero materno, o feto já tem sensações e percepções sobre os estímulos que chegam até ele manifestados pela mãe. Desse episódio da vida, traz uma memória emocional que reverbera pela sua trajetória com mensagens diversas de proteção, acolhimento, amor, alegria, aceitação, pertencimento, conexão ou insegurança, abandono, incômodo e vulnerabilidades diversas.
A infância é a base da vida e portanto, o período mais potente e propício para se “plantar as sementes” que ao longo da jornada, darão os frutos necessários para a manutenção da sobrevivência.
É da infância que trazemos as alegrias e as dores emocionais que marcam a nossa história e definem a trajetória da humanidade. Sim, a pessoa que escolhemos se expande para o mundo através da forma como nos relacionamos com ele.
Essa é a vida real!
Pessoas, quase sempre, entregam ao mundo o resultado daquilo que receberam. E para ser diferente, é preciso coragem para romper com os ciclos de dor e buscar recursos nobres que ajudem na manutenção e gestão das emoções.
A estratégia mais inteligente que conheço para transformar histórias de dor e negligências é o amor que se manifesta no autoconhecimento e os saberes poderosos que nele consistem.
Mas essa, sem dúvida alguma, é uma escolha íntima que exige muita coragem e perseverança para tomar a decisão de se “olhar no espelho” e, se preciso for, rasgar-se por dentro para renascer e deixar florescer o que se tem de melhor e mais puro na essência. O mundo precisa da sua luz!
Quando eu era criança, diante do caos eu buscava abrigo dentro de mim e no encantamento pela Lua, que nas madrugadas sombrias iluminava o céu e me inspirava a escrever e perceber as minhas emoções e sentimentos.
E sem ter a menor ideia disso, foi a minha mãe quem me inspirou a escrever e expressar através das palavras, contos, encantos e desencontros os meus melhores e piores sentimentos.
Sozinha, eu contemplava a Lua da janela do meu quarto, imponente em meio a escuridão, cercada de estrelas que pareciam letrinhas respingadas no céu. Observava meus irmãos dormindo como se nada tivesse acontecido, por vezes dava um beijinho em cada um. E na minha mente se repetia, como serão os outros dias?
Adultos subestimam a inteligência e sabedoria das crianças que naturalmente trazem em si a bondade, a gentileza, a capacidade de agradecer pelas mais singelas surpresas da vida e perdoar, sem filtros ou condições, até mesmo as situações mais dolorosas às quais alguém pode ser submetido.
Educadores são necessários no mundo!
Sejam pais, mães, tias, madrinhas, professores, babás. Os títulos são apenas detalhes.
Importante mesmo é ser exemplo e não se deixar fragilizar diante das adversidades. Jamais abrir mão dessa missão tão linda e nobre que, apesar dos seus desafios, é a única capaz de acolher, aquecer, compreender e empoderar a grande maioria das crianças que um dia, conscientes da sua força no mundo, também serão necessárias para que o bem prevaleça sobre qualquer maldade que possa existir.
Sonho com uma sociedade em que as pessoas, ao se tornarem adultas, se recordem e acolham as crianças que foram um dia, porque essa sim, seria uma oportunidade indescritível para tornar as coisas bem melhores e construir um mundo mais leve, gentil e feliz.
Faz sentido para você?
Com amor,
Roberta Borges
