Educadores, jardineiros e afeto

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Gosto de observar o comportamento humano. É nele onde encontro muitas respostas e, em contrapartida, construo indagações diversas para as quais nem sempre encontro respostas. Já observou alguma vez na sua vida, o comportamento de um jardineiro preparando a terra para plantar as sementes? 

Educadores, quando recebem seus alunos nos primeiros dias de aula agem exatamente assim. Olhar cuidadoso, sorriso no rosto, ouvidos aguçados para perceber cada suspiro, cada história, cada emoção que transcende dos alunos que, seja lá qual for a história familiar, anseiam por um tiquinho de carinho, de escuta, atenção e segurança para contar sem medo, quem são e o que desejam.  

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Jardineiros dos bons, colocam as mãos na terra, sentem o cheiro, a textura, aram, modelam o solo, nutrem e hidratam aquela que talvez fosse apenas barro seco e sem vida, mas com paciência, dedicação, amor e confiança, pouco a pouco, se abre para acolher e deixar semear os primeiros brotos que de uma hora para outra, tornam a paisagem encantadora e surpreendente. 

Educadores, daqueles que amam o que fazem, não se importam com os desafios e limitações que a profissão e a própria sociedade muitas vezes lhe impõem, porque no fundo, sabem que a sua maior missão é ACREDITAR, aconteça o que acontecer, naquelas pessoas que de algum modo, lhe foram confiadas pelas famílias e precisam das sementes poderosas que somente quem pisa numa sala de aula, sabe exatamente o que quer dizer. 

Educar é muito mais do que disseminar conhecimentos. Trata-se de ser, nas entranhas da alma, a mudança, as emoções e os sonhos que você tem para o mundo!

Jardineiros plantam sementes potentes e têm fé no que está por vir, mesmo em dias de chuva forte ou sol escaldante, pois dão forma e luz a jardins e ambientes que diante de tamanha beleza e possibilidades, transformam o sentir e o pensar de quem tem a alegria de contemplar sua diversidade e delicadezas indescritíveis.

Educadores são IMPARÁVEIS na fé de dias melhores, na possibilidade de resgatar aqueles alunos que mesmo quando ninguém mais acredita neles, no fundo dos seus corações sonhadores, há de ter uma forma para acolher, ouvir, aceitar e dar voz aos talentos e criatividade que qualquer criança ou adolescente tem.

Jardineiros são perspicazes diante daquelas mudinhas que perecem perdidas no imenso jardim, por vezes pisadas pelos desavisados, outras esquecidas pelos descuidados ou maltratadas pelos seus donos que infelizes, tornam-se incapazes de valorizar e cuidar das preciosidades que habitam naquela terra. 

Jardineiros olham com olhos de ver e são cuidadosos em arrancar pela raiz as ervas daninhas que tentam tumultuar e desviar as lindas flores para que as demais mudas cresçam fortes, vibrantes e livres para espalhar beleza, acolhimento e alegria pelo mundo afora. 

Educadores, daqueles que cada vez mais deixam de existir, mesmo diante dos perigos iminentes de uma sala de aula contaminada pelas mazelas de uma sociedade doente, acolhem, abraçam, cantam, encantam, porque no fundo, sabem melhor do que ninguém que somente o seu amor é capaz de salvar aqueles alunos desacreditados e humilhados em suas vidas, abusados, violentados, vulneráveis no afeto e no acolhimento que qualquer ser humana tem direito.

Crianças e adolescentes que por algum motivo precisam experimentar a sensação de ter alguém que acredita neles, sentir que podem voar e só então, escrever suas histórias no mundo e florescer, exatamente como deveria ser para TODOS!  

Jardineiros, às vezes, se frustram quando mesmo diante de tanto cuidado, dedicação e afeto, se separam um dia com seus jardins destroçados, pisoteados e destruídos pelo mal que o homem sem fé e bondade é capaz de fazer. 

Educadores, do mesmo modo, às vezes também se deparam com a solidão, o vazio de uma escola que virou lugar sombrio e abandonado pela sociedade e pelas famílias que famigeradas pelas futilidades da vida, esquecem do essencial, do simples e do singelo amor que final das contas, faz tudo valer a pena, ou não. 

Às vezes, jardins floridos enfrentam tempestades impiedosas e, do dia para a noite, tornam-se terrenos vazios, sem cor, sem luz, sem borboletas e sem flor. Árvores são queimadas, vidas arrancadas, destinos dizimados.

Do mesmo modo, escolas diante do caos de uma humanidade adoecida, trocam o giz por cicatriz que rasga a alma de quem só queria tornar as coisas um pouquinho melhores para que crianças e adolescentes fossem mais felizes e pudessem aprender a aprender, ser, fazer e conviver.

Gente que sonhava em partilhar com delicadeza e humildade os saberes de uma vida inteirinha só para ver sorrisos brotarem, olhos brilharem e vidas se transformarem. Mas ao invés disso, lágrimas nasceram, gritos encoaram e as mãos, que antes regiam a possibilidade de um lindo futuro, agora estão sujas de sangue, de dor, medo e vazio. 

Jardins sem flores e borboletas são apenas espaços perdidos no tempo. Escolas, sem professores, amor, esperança e alunos que desejam aprender, é sombra, silêncio e saudade de um tempo que não volta mais. 

Com amor e pesar, 
Roberta Borges

Sobre as tragédias que acontecem todos os dias dentro das escolas e a maioria das pessoas finge não ver.

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Roberta Borges
Roberta Borges
Roberta Borges é mãe e esposa. Pedagoga, psicopedagoga clínica, especialista em desenvolvimento humano e empreendedora. Idealizadora da Cuidandodegente, voltada para acolher famílias que buscam relações inteligentes e saudáveis na Educação Consciente. É também Presidente do Instituto Árion de Equoterapia e Desenvolvimento Humano.

Comentários

2 COMENTÁRIOS

    • Que bom encontrá-la aqui Dra. Meire! É uma honra partilhar saberes e sentimentos tão necessários para a construção de um mundo melhor. Vamos juntas!

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